domingo, 6 de março de 2016


Constructo

 

Aos poucos vou construindo meu Deus

todos os dias

para que Ele fique pronto

quando eu também o estiver

vou construindo meu Deus

para ter a quem entregar minha pequena obra

do contrário, de que vale ser ateu e workaholic?

e vale

quem poderá dizer que não?

pobre de espírito não é aquele sem relaxamento

mas quem, quiçá por preguiça, não sabe construir seu próprio Deus

e precisa pegar emprestado o de outros

(e nem desses outros Ele é)

quem não tem seu próprio Deus

não tem nenhum

e ao contrário do que se diz por aí

Nenhum nasceu pronto.

 

 

 

Asas

 

Sinceramente, não queria ter asas

a não ser que as tivesse

já é difícil lidar com pernas e mãos

braços e pés

sem a coordenação de um baterista

 

sim, sofro de excesso

um excesso que parece falta

mas o que jogar fora?

às vezes penso que a primeira coisa seria a cabeça

talvez assim me nasceriam asas

 

a cabeça, no entanto, carrega quatro dos cinco sentidos

pergunto-me por que os ouvidos não ficam nos ombros

os sentidos brigam pelos lugares mais altos

deve ser isso

 

por outro lado, tenho asas na cabeça

o problema é que lá também estão as gaiolas.

 

 

 

Nascer homem, morrer mulher

 

Quero envelhecer como envelhecem as mulheres

os homens - meu Deus! - vão se tornando cada vez mais estúpidos

deve ser o progressivo aumento da próstata

(não é fácil trazer consigo uma bola de sinuca no rabo)

mulheres, por sua vez, parecem carregar o segredo da morte

a maioria delas recebe o tempo com dignidade

enquanto os homens choramingam e sujam suas calças

embora seja o de menos

o principal? já não gostam de dançar a partir dos quarenta

é isso que faz encarquilhar o espírito logo cedo

e passam a se confundir com suas poltronas

esperando ligações telefônicas das esposas que viajam o mundo

mulheres sucumbem à idade só até os cinquenta

depois se cansam de envelhecer. 

 

 

 

O beijo

 

Uma só dimensão de tempo?

a ciência delira

comemos a mesma carne mil vezes

o tempo vem de todos os lados

assim como o espaço

 

somos tão distraídos pela lógica

que não podemos conceber a verdade

 

tento sentir cada sentimento

mas as palavras se adiantam em mim

já virando poesia

 

quero contar-lhe tudo o que vejo

por isso preciso beijá-la

 

 

Amordaçada

 

A solidão é uma ótima pessoa

para se conversar a sós

a solidão é uma pessoa

(não um fantasma)

a solidão era bonita quando criança

depois cresceram-lhe os pêlos

e hoje assusta nossas infantilidades

a solidão fica brava ao ser desprezada

quem não fica?

quer apenas nos lembrar quem somos

por que não queremos saber de nós?

a solidão tenta nos contar sobre a boa morte

por isso a amordaçamos

mas também quer nos dizer novidades

por que a amordaçamos?

quer nos falar da vida, sem atravessadores

ou dar-nos um refresco do mundo tão cheio e corrido

a solidão é interessante dependendo de quem está dentro

e é inevitável. 

 

 

 

Novidade

 

Surreal sentido

este

isto

fogo nas artérias

hora selvagem

dança de australopithecus

poema gutural

escancaramento do bicho

vivo

incandescente molécula

rasga as tripas

morre tudo mata

estripa o lado mais duro do cérebro

cospe o fígado do satanás da miséria

chuta o rinoceronte do condicionamento

dali para nunca mais

porrada no vento

rajada de pensamento

alma torturada de urgências

afoga o infinito na piscina de borracha

mói o texto

expande o precipício até à búlica

lança o planeta de vidro

não sou eu

é o quark no fundo do espelho

luxo animalesco

o big bang da ideia

 

 

 

Assunto do dia

 

Tenho mais o que fazer além de me pautar pela pauta da mídia

por isso, vamos falar de amor

ah, o amor...

é uma doença

como a febre

uma doença que cura

febre não é doença?

então o amor não é

mas também cura

rasga, fere, machuca

mas cura

esfola, soca, descasca, humilha, esfrega

e cura

detona, esculacha, ofende, assusta, lincha, destrói, espanca

e cura?

talvez porque eu só conheça o amor até à paixão

jamais passei desse ponto

dizem que depois não é amor

apenas amizade

ou inimizade

ambos chamados de amor

devo estar errado, isto sim

às vezes não sei bem o que falo

e fico arriscando palpites

...e já me cansei dessa conversa

vamos falar de política.

 

 

 

Adultos

 

No interior do avião os adultos comem aperitivos com suas almas de brinquedo

chomp, chomp

chomp, chomp

mastigam, mastigam, os homens de terno e as mulheres de tailleurs azul-escuros

chomp, chomp, chomp

daqui a pouco estarão em reuniões de trabalho com suas máscaras de seriedade

nhic, glub, glub, chomp, chomp

perderiam seus contratos se ali mastigassem suas gomas de aviõezinhos e seus snacks que grudam nos dentes

perderiam seus contratos se ali falassem como falam ao sentir ciúmes de seus amores

perderiam seus contratos se ali esboçassem suas caras de quando estão na privada

e perderiam todos os contratos se pensassem como pensam lá dentro: hihihi, hum, hã?, eheh, crec, crec, fung...

os adultos no interior do avião

os adultos em suas casas

os adultos e suas poses no espelho

os adultos cutucando seus narizes

os adultos dentro de suas cabeças

quanta inadequação...

mas a máquina não para. 

 

 

 

Pontas de faca

 

Há vinte anos esmurro pontas de faca

três vezes ao dia

e só agora passei a quebrá-las

fiz o caminho zen do quebrador de pontas de faca

preferi essa estratégia a simplesmente ir pela vida me desviando de artefatos pontiagudos

o resultado é que me tornei um especialista em atravessar arames farpados e hordas de mercenários armados até os dentes

claro que continuo me rasgando inteiro

mas atravesso

dizem-me (estão sempre me dizendo) que existem melhores caminhos

a questão, no entanto, é de vocação

alguns têm talento para a paz (que muitas vezes pode ser guerra)

outros, para a guerra (que pode ser paz)

meu maior talento é este: esmurrar pontas de facas até quebrá-las

sou mais real que as farsas do mundo

e há muito tempo que sabia disso.

 

 

 

Borboletas

 

Infinitas muralhas de sentimentos

uma parede em cada esquina da alma

impedindo-nos de participar do balé de todos os atos

(não é isto?)

vamos brincar de derrubar muros! - gritei a ela

e lá fomos eu e Maria

quase três, de tão juntos

o que não está ligado a que neste mundo?

estamos eu e Maria

e tudo estará

no dia em que derrubarmos todos os muros

a certa altura eu disse à Maria: tenho tanto sentimento

que não me arrisco a senti-lo completamente

apesar de às vezes sentir até mais que isso

e ela me disse: tenho as chaves que abrem todas as portas

mas não derrubam muros

pois juntemos nossos medos num mesmo espaço, Maria

para ficarem densos como coragem

e agora só nos restam dezessete muretas

pam!

dezesseis!

e ela dá sua risada.

 

 

 

Ricos

 

Os ricos pagam seus pedágios
não suficientemente seus impostos
e entregam boa parte de suas vidas
como o fazem os pobres:
subordinam-se
temem suas perdas
adoecem
apodrecem
morrem
os ricos não entendem a poesia
por isso se ocupam com suas posses
poetas não entendem a propriedade
sequer possuem a si mesmos
os ricos são mais selvagens
sem muita cerimônia mostram os dentes
e querem exclusividades
mas contrabaixistas experimentam sensações mais exclusivas
os ricos não enxergam os pobres como pessoas
por isso sentem-se no direito de enfiá-los nas favelas
nos trens superlotados e nas cadeias
os ricos detêm o argumento de gerar empregos
achando muito importante fazer dos outros seus empregados
detêm o argumento de gerar riquezas
achando bonito um planeta entupido de consumidores
detêm o argumento de que alguém precisa mandar
achando natural o extermínio da subjetividade alheia
os ricos comem a comida dos pobres
roubam suas calçadas, seus hospitais, seus sistemas de esgoto
e estranhamente...
costumam ser muito religiosos.

 

 

 

Filosofia da carne

 

A filosofia sempre está por trás das coisas

jamais vem à frente

é uma fêmea fugaz a ser conquistada

pode ser orgulhosa

pomposa

impraticável

porém quando se entrega

cavalga sobre nossas cabeças

e faz todo o cérebro tremer nas sinapses

proponho, no entanto, uma filosofia da carne

que faça com que tenhamos bons modos

à mesa dos famintos

que nos afugente olhos e ouvidos de música e literatura baratas

que tal, Maria Carolina,

uma filosofia que se sinta

e mate a baranguice,

com um refrigerante de complexidade?

que tal, meu amor,

uma filosofia que nos livre de nós mesmos

mas que mantenha o perfume e o beijo?

que tal, João Edgar,

uma filosofia cremosa e hidratante

absorvida pela pele

embora deixe cicatrizes?

 

 

 

Faço poemas

 

Agora faço poemas

daqui a pouco faço qualquer outra coisa

por exemplo: lavo a roupa

ligo a TV num seriado

e volto a fazer poemas

mijo, cago

e não demora faço poemas

brigo com a atendente da empresa telefônica

sinto dor no joelho

e já escrevo novos versos

arroto e faço poemas

minto e faço poemas

gozo e faço

pago a conta de luz

penso nas inovações do futuro próximo

falo idiotices à minha namorada

e em minutos, singelamente, misturo palavras

agora faço poemas

meia hora atrás acordei com bafo de onça

olho no espelho e vejo que estou mais velho

e faço poemas

que estranha ficção é a vida!

 

 

 

 

Felicidade

 

A felicidade é uma utopia barata

feita de parâmetros e propaganda  

a felicidade é corrupta

(sei lá exatamente por que o digo

apenas me vem à cabeça

embora eu concorde com a ideia)

e também é tirana

isso bem sei por que digo

quando foi inventada?

não encontrei no google

quinze séculos antes de Cristo, porém, já se sabia o que era

hoje, é claro, não se sabe mais

é muito tempo para a duração de um conceito

e por que escapa?

porque pula de gente em gente

uma vez que não há felicidade para todos  

 

só é feliz quem cuida

muitas vezes eu também cuido

mas não quer dizer que acredite nessa coisa.

 

 

 

?

 

O que fazer?

para onde olhar?

será isso?

posso escapar?

quem sou?

quem somos?

nada mais saberei?

restam apenas perguntas?

o que soubemos que já não sabemos?

esquecemos?

desinventamos?   

haverá amor sem paciência?

haverá suficiente atenção para a entrega?

o quanto estou possuído por sistemas binários e propagandas?

sou o que não desconfio ser?

 

um ponto de exclamação!

 

 

 

 

 2

 

Como criar vida a partir dos números primos

 

Sujeito desde a primeira hora

movimento perpétuo

inimigo intrínseco...

a sombra na parede

a fumaça num canto da sala

a materialidade das cores

mundo de arbítrios

e a gente, inevitavelmente,

caindo.

- Como criar vida a partir dos números primos? - perguntou-se Robert Daniel

enquanto caía

levar tudo da vida

foi nosso pacto

primeiro e último

depois restaram símbolos

que já não fazem sentido ou sobre eles nada mais precisamos dizer

No dia em que se pregou a décima primeira tábua

na porta que dava acesso à rua de baixo

propagou-se a idéia de um mundo sem deus

elemento tardio

preso aos próprios calcanhares

e já aqui

voando sem asas

não inventei o bem

mas alguém inventou

alguém de quem não gosto

como não gosto de quem inventou qualquer abstração

fatos gerais para dias normais

e a sombra na parede agora é a de um cachorro

a tarde tingiu o ambiente de sépia

em algum lugar o som dos arbustos

tudo muito bem guardado

para quando o infinito couber num depósito de fogos de artifício.

 

 

 

 

Memórias de pano

 

Na minha colcha de retalhos tem uma fotografia de Garcia-Lorca declamando o último poema antes de ser fuzilado

há cinco sorrisos para cada lágrima em minha colcha de retalhos

uma canção em mi maior, para que haja ternura, pero sin perder el endurecimiento

o fantasma de um velho barbudo de quem arranquei os fios da barba para fazer um tapete voador

e tem um sentimento de abandono, além do abandono mesmo, das coisas inúteis, na minha colcha de retalhos

nas extremidades, os perigos indispensáveis para uma boa morte

ao centro, um recorte de prazer pleno e furioso nesse manto de também gotejantes agonias

um leque de todas as vaidades, à direita

e à esquerda, a vã esperança de que um ser humano venha a ser no máximo quatro vezes menos elegante que outro

tem ainda um sonho em que flutuo na horizontal a um metro do chão, nesse mosaico de tudo dentro de mim e à minha volta

duas torres implodidas, não tenho dúvida

um violão de dezoito cordas

uma livraria de livros escritos em meu corpo

e um pé de jabuticaba com espaço para ficar sentado em cima

há também uma fantasia de violência nesse pano colorido

há o que não sou, mas tento ser (ou apenas parecer)

tem até mecânica quântica, ataque de ciúme e dança da chuva nessa colcha quase infinita

família, amigos e amores

lembranças inventadas

paisagens inesquecíveis

a vontade de seguir em frente

e essas noites frias

em que durmo coberto por tudo isso.

 

 

 

 

Poesia de calçada

 

Toda a poesia desfila diante de alguém sentado à mesa de um café na calçada

é a vida que passa

a senhora gorda, o velho corcunda, a garota ruiva e a criança intrigada com o futuro

em algum momento, distraidamente, relembram seus planos

para tornar a esquecê-los ao se sentirem observados

mais que as mãos dadas do casal de meninas

os polegares cúmplices apertando-se ao cruzarem o homem carrancudo

ele, que nem as repara, afundado em suas memórias de laranjas mofadas

elas, que vão sentindo ínfimas palpitações de um primeiro dia de romance, com breves sorrisos no final da arcada dentária

a recém solteira mulher de trinta corre os olhos pela vitrine da loja para bebês

o cachorro acompanha os vãos por entre os passos bípedes

o guarda de trânsito olha para o relógio de punho, num mero instante fotografado

sem jamais imaginar que seu retrato foi parar numa galeria de arte

a câmera, agora aponta para o sinal vermelho

aquele sentado à mesa volta-se mais uma vez para o papel encontrado à ponta da caneta que desenha símbolos

expressões para fabricar sentimentos

conspirações de pessoas e ferramentas

oximoros descontínuos

enfim, tudo reinventado

 

o poeta se levanta e parte

deixando para trás suas últimas angústias

mas a poesia continua.

 

 

 

 

Mundo plano

 

Universo colado numa lateral do mundo

gravidade sobre ombros curvados

olhares íngremes

enquanto a vida segue

caminhando-se em direção às muralhas do horizonte chapado

movendo-se por uma dor insuficiente para se escrever poemas

numa conquista de esquinas

 

Alguém se deita para ver mais longe

e velhas cortinas fecham-se para sempre

pois muita calma diante de enigmas

que nada será explicado

quando ruir a última resposta

do caleidoscópio de verdades

todas e nenhuma.

 

Enfim, as raízes despregam-se do barro que carrega tudo para baixo

instabilidades planas recobrem pirâmides

a lua inaugura novas estações

não obstante o impacto

tudo melhor que nada

e agora nenhuma certeza

a não ser a do escalpo finalmente apontado para o céu.

 

 

 

 

Não ao pó (cenas de um infarto)

 

Dezesseis minutos:

a auto-imagem na colher de sopa

viver faz sentido no aroma de aspargos

e no cuidado dispensado aos temperos

quinze minutos:

desejos radiais

partículas chocando-se contra o diminuto núcleo

mas restam a ousadia dos elétrons

e a melodia oculta em Stravinsky

dez minutos:

lembranças de um dia quente no inverno

calor e frio na multiplicidade

mudança de país para se fugir do grande amor

ou terá sido um convite da inquietude, já não importa

oito minutos:

o afeto reside em um novelo de lã

trabalhadores braçais, ao longe, brincam de pequenas violências físicas

cinco minutos:

de nada se desconfia

a não ser de se ter deixado destrancada a porta da sala

e de como são feitos os embutidos

três minutos e um sorriso franco diante do seriado na tv

quem dera o mundo fosse realmente plano

para que não se voltassem os bumerangues

não que seja por isso

um minuto:

a morte mais real que a vida

o oxigênio como última verdade

uma luz se apaga

mundo sem lastro

três, dois, um

o coração pára

agora tudo é mentira

seria

não fosse o pronto socorro improvisado

e ainda haverá mais trinta e cinco anos de vida

além de toda poesia.

 

 

 

 

Sobre as coisas que são para sempre

 

Viajava pelo mundo da beleza pura e simples

quando me deparei com uma beleza rasgada

eu era muito jovem

e de repente, ali, fiquei mais velho, de uma velhice mágica

foi como ter descoberto a pólvora

que me explodiria para o universo das belezas tristes

e das belezas maculadas

ali também fiquei um pouco mais mudo

enquanto Apolo escorria vermelho para fora de meus ouvidos

e Dioniso acenava-me de longe, gritando algaravias (apenas porque eu ainda não as entendia)

quando o primeiro espinho me cortou a carne

vi um mundo retorcido

e achei graça

estava inaugurada em mim a angústia

de querer tocar o dedo de deus

a cada dia

e claro que era sem volta

aquela beleza me tornou mais vivo.

 

 

 

 

O fim da estrada

 

Caminho pela trilha de uma paisagem imensa

a cada centímetro rasgo com minha pele a pele invisível do espaço

meu corpo se funde ao horizonte

nesse mundo que só existe agora

em todos os ângulos possíveis

 

eu estava tão distraído

que senti o tamanho do universo

ao tentar agarrá-lo retornei à estrada

 

agora à minha volta nenhum movimento

só este zumbido nos ouvidos

o canto esquecido de um pássaro

um céu abstrato

e as coisas que não existem

mas que vibram

 

não quero chegar. 

 

 

 

 

Um quadro

 

Corre o pincel

a tela recebe seu primeiro azul

invisíveis círculos projetam-se aflitos

mas não serão recolhidos

somente os mais cúmplices e resilientes

porque ainda haverá outros laços

e esses entre outros amarrados e soltos.

o rosto enigmático assiste a tudo

desvelando-se em gotas, formas expansivas

para quais não se olha, atira-se

adentro desse mundo elástico e preciso

caleidoscópio de sóis e luas

verdes, azuis e amarelos girando macios

fundo estampado de outros fundos

esquinas convexas

bolas de oxigênio, cíclicas

e tudo agora está feito, impresso, contido.

até onde se alcança com essas rodas?

como desdobrar este mundo?

universo feminino de inaudito sorriso

e essas cores que não se aprendem

se conquistam.

 

 

 

 

Lusco-fusco de domingo

 

A violência como sentido

o último suspiro da utopia

palavras translúcidas

e tudo o que no fundo é nada

apague a luz o último a sair da redoma de preceitos

nunca houve o que houve

apenas o agora das entrelinhas

e o restante de adornos

contornados

 

mas sempre haverá o gozo.

 

 

 

 

Namorados

 

Eles e elas

todos

a trocar beijinhos

carinhos

preguiças

pequeninas catarses

singelas disciplinas

elaborando densidades tão íntimas

que quase se constituem matérias

no encontro dos olhares.

pessoas lindas, as apaixonadas

a contrariar maldades

a esquecer-se das coisas úteis

sendo de toda utilidade apenas a vida

essa que se usa enquanto se namora

e é somente o começo

de beijos suaves colhem-se abraços e apertos

o coração acelera

as mãos procuram entradas

destituem-se panos e semanas

e o tempo agora é o da natureza

o espaço é uma selva

nua, a carne impensante, quase toda

não fossem os átimos de lembranças

os ínfimos atos falhos

e uns pouquíssimos segredos

ainda assim, o ímpeto de um bicho

sem a incômoda profusão dos símbolos

e já não se sabe onde começam e terminam as pernas

feios e bonitos, tudo é beleza

orgia, lascividade, despudor

indecência, sacanagem e falta de vergonha

quando nesse descaminhar anuncia-se o gozo

e nessa hora não há maldade

ou bondade

ou conhecimento

apenas o que é, existindo

e só nesse instante

depois, notar-se-á algum vazio

nota-se, mas não se dá conta

assim, tão paradoxo quanto é o amor

ou o mundo

ou como o são os amantes

e então, vem a realidade

mas ainda se está apaixonado.

 

 

 

 

Palavras em câmera lenta

 

A pele

grudada na carne

a divisão entre o não espaço

mundo encontrado em si mesmo

desvãos acumulados

até a matéria

 

misturam-se música, moedas e matemática

alcança-nos o tempo descarrilado

séculos e minutos

envergam-se

apenas eu estou parado

nesse retrato de todas as coisas

aqui dentro

 

ficou o seu perfume na partida

guardei-o num frasco

que um dia se quebrou

e agora seu cheiro

entranhou-se de vez pelo mundo

 

testemunha em detalhes mínimos

quando o lábio se deformou

mordendo-se delícias

 

acontece agora no coração

na mente já é futuro e passado.

 

 

 

 

Ao vento

 

As promessas de uma vida

heranças distribuídas aos pedaços

sementes desterradas

projetando novos dias

patrimônios metafísicos, latências aladas

não se sabe o quanto espalham-se ou se multiplicam

ou se morrem na esquina de nenhum lastro.

 

o que se deixa e a quem?

será este o motivo: uma alma contínua sobre todas as costas

obedecendo a um gigante faminto?

legados não-lineares, espirais disrítmicas

estará o mundo indo ou vindo?

o que se constrói e se destrói a cada passo?

futuros ancestrais

atavismos erráticos

todo o conjunto da obra

nos mínimos detalhes

lançados ao vento.

 

 

 

 

Duas coisas antes de morrer

 

Uma: saltar de pára-quedas no Grand Canyon e ao pousar cair direto no tatame de uma dinâmica kundalini misturando-me a outros doze corpos em meditação e êxtase rolando por cima de todos eles durante vinte minutos de sensações não codificáveis e estranhamente desconhecidas para logo após entregar-me a um surdossonoro mergulho nas águas límpidas de Galápagos ouvindo Kashmir na versão original já atravessando os mares até Barcelona chegando no fim de tarde para assistir ao pôr-do-sol do mais intenso vermelho que já se derreteu no horizonte. Depois um banho demorado, lagosta na manteiga, dançar num pequeno bar até o dia nascer e de modo algum perder o café da manhã em Agadir pois ainda será preciso alguma energia para largar-me nas areias mornas de Lopes Mendes e sorver pela última vez A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock sentindo a brisa arrepiar a pele e o corpo tocar o chão macio por onde eu poderia escoar sem o mínimo temor do desaparecimento derradeiro.

E a outra: te pegar de jeito.

 

 

 

 

Mundo abstrato

 

Um sonho

sonhado ao meio-dia

um cochilo pesado

de quem acaba de comer um rato

e eis que se compreende

que um rato é o mesmo rato

do outro dia

embora outro

 

agora todos os ratos são rato

todos os rios são rio

e o sol

é o sol de todos os dias

é o sol

é o rio

é o rato

no mundo abstrato

 

e ele já não é ele

saiu de si

desejando ser outros

(embora já fosse)

 

o raciocínio está fora do mundo

 

e ele agora está sozinho

pensando.

 

 

 

 

 3

 

 

 

 

 
Mundo dos homens

 

Não

não é de História que aqui se fala

mas de poesia

a poesia do mundo dos homens

do pensamento

das ferramentas

e das palavras

da ínfima caminhada cósmica

com pegadas de cinco dedos

e rodas

e asas

do mundo mediado

simbolizado

por abstrações faladas, cantadas, pintadas, dedilhadas, dançadas e escritas

pois é esta a grande poesia humana

em que X compreende Y

nas miragens da caverna

mundo impresso nas sombras

a procura da luz encerrada na escuridão

que também somos nós

um breve olhar para o céu

e lá estávamos

gigantescos

deificados

imagem e semelhança desde quando não se sabe

e a vista, ao alcançar o horizonte

imaginava a queda que havia no fim

do planeta quadrado

mas antes

o que esconderiam as altas gramíneas

que moldaram o corpo ereto

arrancando do chão a fuça pré-humana

oferecendo a visão em detrimento do olfato na cadeia das importâncias

desde a descida das árvores?

ahh...ferramenta, ferramenta

mãos também mediadas

corpo sob a pele de outro corpo

pele também mediada

visão exaurida por outra visão

tudo atravessado

a religiosidade

as pernas

o amor

tudo outro e outro

em todos os tempos presentes, passados e futuros

o tempo das borboletas e das redes

dos velhos e das crianças

das mulheres e dos homens

dos funcionários públicos e dos astronautas

tempo e espaço infinitamente múltiplos

e a razão que não é razão

a emoção forjada

a grande cegueira em relação a todas as coisas menos uma:

a lógica

o mundo inaugurado nos sonhos

e sonhado

pois sempre houve a fantasia

e a vontade

o delírio

o medo

e a beleza

neste multiverso de afetos e traumas

de orgasmos atingidos na sinapse

na poesia que também sempre houve

na qual se forjou a cultura dos povos

da cultura, a matemática

da matemática, o lucro

antes até dos números

só não antes da poesia

que não é mal ou bem

apenas a primeira resposta à dor do raciocínio

a palavra...a palavra...

o som, no entanto, precede a palavra

o ritmo precede a palavra

que se veja um bebê e suas algaravias

que se pense em nossos ancestrais rosnando fonemas

ritmo e sonoridade

mas a poesia precede a tudo

e embora seja um exemplo tardio, nunca existiu uma cidade sem versos

Que não houvesse arte nos primeiros desenhos rupestres

ou nos primeiros rufos de tambores

mas um poema já habitava o planeta

na estética da sobrevivência

pois é este o mundo dos homens

mundo dentro de outros mundos

quando da guerra se fez o esporte

da comunicação, a música

e de raios e trovões fizeram-se as divindades

não somos o que somos

apenas o que acreditamos

todas as ciências

a arte

os animais domesticados

nossas incontáveis relações com coisas vivas e mortas

a agricultura e as máquinas

o vício da ordem

e os demais vícios

(o poder, não,

que esse é do bicho)

a roupa

o dinheiro

a culinária

mundo real inventado

assim como, um dia, inventaremos a vida após a morte

um novo universo antes do bigbang

e o sexo híbrido

eis o mundo dos homens

não sua História

mas sua poesia

a única realidade possível.

 

 

 

 

Sertão semântico

 

1

 

Um leito de rio seco

 pronto para receber as águas da nova estação

 olhando o longo corredor de barro espesso

 quem sequer suspeita de sua tormenta?

 árido caldeirão de vento

 que logo abrigará mil formas explodidas

 rico manancial de silêncio

 o leito paciente fixado no tempo

 enquanto tudo corre para ele

 e dele irradiará para tudo

 indômito vulcão

 o rio seco

 conhece o vazio ardente

 intui seu renascimento.

 

2

 

Cai a primeira chuva

 e das águas turvas surgem poemas

 escritos com lama revolta e galhos secos

 impressos em si mesmos

 à margem e acima das superfícies

 inaugurando correntezas também adentro

 alimentando novos poderes da existência

 semeados à força do estio

 não sou eu

 é ele

 o rio

 e antes do rio

 seu leito.

 

3

 

Temporada das águas

 emoções líquidas ocupam a metade mais rasa do planeta

 na outra metade duras montanhas barram as embarcações esquivas

 e já não existe o leito

 mas caminhos erodidos

 abalos sísmicos de gotas chocando-se contra o vento

 enxurradas até que desertos derretam

 e fantasmas supliquem por suas correntes

 vai-se o mundo em chamas avessas

 e o rio com sua cauda a transbordar nos horizontes

 inundando sonhos de deuses translúcidos

 esperanças submersas

 tudo flutua

 no afogamento.

 

4

 

Derramam-se as luas cheias

 escorrem pelos povoados e prados a seiva

 a última chuva dedica-se a um hectare

 em volta já se vêem os veios indolentes

 miragens verdes

 e o rio desnudando-se em sangue negro

 a lama, o úmido desterro

 o céu aceso

 infinito mergulhado ao centro

 a obra inscrita num juazeiro

 e ali

 o leito

 novamente seco

 espreita.

 

 

 

 

Desaparecer

 

1

 

Definitivamente

não há silêncio

e tudo extrapola para além de meu corpo

idéias impregnadas de poesia

é o que ofereço:

um infinito de carbono

nesse canto

que me mata de vida

enquanto átomos explodem do peito

coincididos,

mutilações construtivas

diante da densidade única de um momento

configurações terciárias

no poderoso instante criativo

alma diluída

sapiência de estrelas

visão até às costas

hipertexto de mundos

e eis que estou aqui de novo

 

2

 

Aqui novamente

e já vou indo

na onda que volta

sempre outra

todas as formas pulsando de minha veia

o necessário

políticas do sentimento

deseducação atávica

lançando mil destroços

até mediar-me

sem verdades

que se danem órbitas e raciocínios

para além das estrelas não há segredos

apenas ignorâncias em si mesmas

imponentes ciências, portanto, nada importam

importa o beijo.

 

 

3

 

Fui e voltei de tantas expectativas

enquanto perdi cada segundo dos balanços balançados

nada é mais importante que a ameba

dividindo-se

conhecemos os fatos?

bichos de hesitante presença

calculistas afetivos

tudo isso

sei de uma coisa que ninguém sabe:

sei aqui dentro

ainda que tão pouco.

 

4

 

E novamente me vejo

enquanto recolho alguns trocados.

 

 

 

 

Viagem ao mundo dos nomes

 

Toda palavra tem uma origem

um dia em que se tornou aquele nome

eu estive em cada um daqueles momentos

foi de repente

num devaneio

respirei trinta e duas vezes

deixei-me levar

e lá cheguei

atravessando todos os tempos da linguagem falada

 

novas sinapses para novas articulações

até à abstração

e da abstração...

a primeira palavra

 

as palavras nasciam das varas de condão dos dedos

apontava-se e se nomeava:

uru uru, queria dizer pedra

akar, era árvore

muitas vezes, porém, akar ainda podia significar pedra

e uru uru, árvore

aquela

ou todas

 

mas surge o segundo movimento da lógica:

a sentença

a conversa entre substantivos, adjetivos e verbos

nomes servindo a outros nomes

e antes que se percebesse

estava-se preso pelo que saía de todas as bocas

 

na velocidade dos relatos vi deuses ganhando contornos de braços e pernas, olhos e narizes

homens cercando um pedaço de terra em nome de terríveis mistérios

histórias e notícias voando de uma cabeça a outra

de coração em coração

e o mundo agora plasmava-se a partir dessas aereabilidades

com peso de pedra

madeira

e ferro

 

um dia, as palavras aterrissaram

e conquistaram superfícies

oficializando leis e contratos

matemáticas e estados

globalizando as mentalidades

 

novas armas para novas guerras

vi o mundo sair da idade das trevas e iluminar-se pelo calor do discurso

Céu e Terra separarem-se a partir de espadas retóricas

que poderiam ser outras

caso houvesse um buraco pelo caminho

ou a nuvem estivesse ao meio-dia em formato de leão

mas não havia

mas não estava

 

religiões se reformam

conhecimentos se multiplicam

ciências consolidam-se

sempre as palavras

roçando em outras palavras

entrelaçando-se vertiginosamente

sobrepujando mesmo as evidências

 

minha nave agora viaja na velocidade da razão

mãos nervosas conduzem máquinas que moldam cinco mil novas verdades

inauguram-se dez mil novos dilemas

nessa revolução teiática de ideias colididas

e comunicadas

tornando as palavras metametáforas

num mundo de microtécnicas

linguagens suprasimbólicas

e os impactantes componentes elétricos

 

novas palavras

faladas

escritas

embutidas

o advento do slogan

e já não se caminha

flutua-se

 

velocidade final

rompidas as barreiras do tempo e do espaço

declarado o fim da história

a propaganda supera a moral

as palavras perdem o peso das coisas tangíveis

e já não relatam acontecimentos

mas sonoridades e cores

 

fixa-se novamente a imagem

agora não mais como espelho da natureza

mas imagens-ficções

potencializadas tecnologicamente

divulgando todos os mundos possíveis

legislações implícitas

ordenamentos invisíveis

 

o que virá?

de onde virá?

a que tempo?

 

finalmente estou de volta ao quarto

desperto de um sonho estranho

e nada mais posso dizer.

 

 

 

 

 

A outra metade do mundo

 

Tanto tempo sentado diante dessa tela

que finge estar viva

mas não cheira

não toca

não sente.

eu sinto

(embora menos que antes)

então me levanto e caminho

para, primeiramente, irrigar os vasos sanguíneos

e sentir o pulso

enquanto atravesso a porta

já descendo as escadas de dois em dois lances.

Ao chegar à portaria surpreendo o porteiro dormindo

acordo-o, convido-o

que tal nenhuma pergunta e seguirmos?

e seguimos

agora também acompanhados pela modelo e pelo advogado de causas trabalhistas

vamos a passos largos

e já somos quatro

cinco

dezesseis

somos setenta e oito

e sabemos aonde vamos

somos quinhentos e vinte

desdobrando esquinas

caminhantes irredutíveis

três mil, trezentos e trinta

batendo à porta dos adormecidos

seduzindo transeuntes

pelo poder do ritmo

vinte mil pares de pernas

e não pode mais haver silêncio nisso

meio milhão já se contam do alto

atravessando a cidade e de lá saindo

rumo a outra cidade e outra

e já somos quinze milhões

rompendo terras e rios e tão rápido multiplicados

ultrapassando fronteiras

até depararmo-nos com novas turbas de seculares peregrinos 

contando-se agora um bilhão e meio de cruzados

já se avistando até maior soma do outro lado

marcha obstinadamente vencida mar acima

na onda que prossegue inabalável

rumo onde encontra-se a convenção dos sessenta e dois mais ávidos

detentores da mesma soma que cabe a três bilhões e quinhentos milhões de recém despertos

eles, os sessenta e dois, frente a frente com nosso exército de possuídos

tentando explicar com que direito detêm a mesma riqueza da metade mais pobre do mundo

os sessenta e dois homenzinhos

que pensam, que sonham, que gozam, que defecam

bradando suas verdades de quatorze horas de trabalho

da premiação também pelo risco

do mérito que deve ser assim calculado

pelo divino direito de lucro e acúmulo

das regras do jogo que todos sabem

das leis que...

mas nossa multidão de metade do mundo lentamente avança

e as palavras dos sessenta e dois homenzinhos já não fazem sentido.