Constructo
Aos
poucos vou construindo meu Deus
todos
os dias
para
que Ele fique pronto
quando
eu também o estiver
vou
construindo meu Deus
para
ter a quem entregar minha pequena obra
do
contrário, de que vale ser ateu e workaholic?
e
vale
quem
poderá dizer que não?
pobre
de espírito não é aquele sem relaxamento
mas
quem, quiçá por preguiça, não sabe construir seu próprio Deus
e
precisa pegar emprestado o de outros
(e
nem desses outros Ele é)
quem
não tem seu próprio Deus
não
tem nenhum
e
ao contrário do que se diz por aí
Nenhum
nasceu pronto.
Asas
Sinceramente, não queria ter asas
a não ser que as tivesse
já é difícil lidar com pernas e mãos
braços e pés
sem a coordenação de um baterista
sim, sofro de excesso
um excesso que parece falta
mas o que jogar fora?
às vezes penso que a primeira coisa seria a cabeça
talvez assim me nasceriam asas
a cabeça, no entanto, carrega quatro dos cinco sentidos
pergunto-me por que os ouvidos não ficam nos ombros
os sentidos brigam pelos lugares mais altos
deve ser isso
por outro lado, tenho asas na cabeça
o problema é que lá também estão as gaiolas.
Nascer
homem, morrer mulher
Quero
envelhecer como envelhecem as mulheres
os
homens - meu Deus! - vão se tornando cada vez mais estúpidos
deve
ser o progressivo aumento da próstata
(não é fácil trazer consigo uma bola de sinuca no rabo)
mulheres,
por sua vez, parecem carregar o segredo da morte
a
maioria delas recebe o tempo com dignidade
enquanto
os homens choramingam e sujam suas calças
embora
seja o de menos
o
principal? já não gostam de dançar a partir dos quarenta
é
isso que faz encarquilhar o espírito logo cedo
e
passam a se confundir com suas poltronas
esperando
ligações telefônicas das esposas que viajam o mundo
mulheres
sucumbem à idade só até os cinquenta
depois
se cansam de envelhecer.
O
beijo
Uma
só dimensão de tempo?
a
ciência delira
comemos
a mesma carne mil vezes
o
tempo vem de todos os lados
assim
como o espaço
somos
tão distraídos pela lógica
que
não podemos conceber a verdade
tento
sentir cada sentimento
mas
as palavras se adiantam em mim
já
virando poesia
quero
contar-lhe tudo o que vejo
por
isso preciso beijá-la
Amordaçada
A
solidão é uma ótima pessoa
para
se conversar a sós
a
solidão é uma pessoa
(não
um fantasma)
a
solidão era bonita quando criança
depois
cresceram-lhe os pêlos
e
hoje assusta nossas infantilidades
a
solidão fica brava ao ser desprezada
quem
não fica?
quer
apenas nos lembrar quem somos
por
que não queremos saber de nós?
a
solidão tenta nos contar sobre a boa morte
por
isso a amordaçamos
mas
também quer nos dizer novidades
por
que a amordaçamos?
quer
nos falar da vida, sem atravessadores
ou
dar-nos um refresco do mundo tão cheio e corrido
a solidão é interessante dependendo de quem está dentro
e
é inevitável.
Novidade
Surreal
sentido
este
isto
fogo
nas artérias
hora
selvagem
dança
de australopithecus
poema
gutural
escancaramento
do bicho
vivo
incandescente
molécula
rasga
as tripas
morre
tudo mata
estripa
o lado mais duro do cérebro
cospe
o fígado do satanás da miséria
chuta
o rinoceronte do condicionamento
dali
para nunca mais
porrada
no vento
rajada
de pensamento
alma
torturada de urgências
afoga
o infinito na piscina de borracha
mói
o texto
expande
o precipício até à búlica
lança
o planeta de vidro
não
sou eu
é
o quark no fundo do espelho
luxo
animalesco
o
big bang da ideia
Assunto
do dia
Tenho
mais o que fazer além de me pautar pela pauta da mídia
por
isso, vamos falar de amor
ah,
o amor...
é
uma doença
como
a febre
uma
doença que cura
febre
não é doença?
então
o amor não é
mas
também cura
rasga,
fere, machuca
mas
cura
esfola,
soca, descasca, humilha, esfrega
e
cura
detona,
esculacha, ofende, assusta, lincha, destrói, espanca
e
cura?
talvez
porque eu só conheça o amor até à paixão
jamais
passei desse ponto
dizem
que depois não é amor
apenas
amizade
ou
inimizade
ambos
chamados de amor
devo
estar errado, isto sim
às
vezes não sei bem o que falo
e
fico arriscando palpites
...e
já me cansei dessa conversa
vamos
falar de política.
Adultos
No
interior do avião os adultos comem aperitivos com suas almas de brinquedo
chomp,
chomp
chomp,
chomp
mastigam,
mastigam, os homens de terno e as mulheres de tailleurs azul-escuros
chomp,
chomp, chomp
daqui
a pouco estarão em reuniões de trabalho com suas máscaras de seriedade
nhic,
glub, glub, chomp, chomp
perderiam
seus contratos se ali mastigassem suas gomas de aviõezinhos e seus snacks que
grudam nos dentes
perderiam
seus contratos se ali falassem como falam ao sentir ciúmes de seus amores
perderiam
seus contratos se ali esboçassem suas caras de quando estão na privada
e
perderiam todos os contratos se pensassem como pensam lá dentro: hihihi, hum,
hã?, eheh, crec, crec, fung...
os
adultos no interior do avião
os
adultos em suas casas
os
adultos e suas poses no espelho
os
adultos cutucando seus narizes
os
adultos dentro de suas cabeças
quanta
inadequação...
mas
a máquina não para.
Pontas
de faca
Há
vinte anos esmurro pontas de faca
três
vezes ao dia
e
só agora passei a quebrá-las
fiz
o caminho zen do quebrador de pontas de faca
preferi
essa estratégia a simplesmente ir pela vida me desviando de artefatos
pontiagudos
o
resultado é que me tornei um especialista em atravessar arames farpados e
hordas de mercenários armados até os dentes
claro
que continuo me rasgando inteiro
mas
atravesso
dizem-me
(estão sempre me dizendo) que existem melhores caminhos
a
questão, no entanto, é de vocação
alguns
têm talento para a paz (que muitas vezes pode ser guerra)
outros,
para a guerra (que pode ser paz)
meu
maior talento é este: esmurrar pontas de facas até quebrá-las
sou
mais real que as farsas do mundo
e
há muito tempo que sabia disso.
Borboletas
Infinitas
muralhas de sentimentos
uma
parede em cada esquina da alma
impedindo-nos
de participar do balé de todos os atos
(não
é isto?)
vamos
brincar de derrubar muros! - gritei a ela
e
lá fomos eu e Maria
quase
três, de tão juntos
o
que não está ligado a que neste mundo?
estamos
eu e Maria
e
tudo estará
no
dia em que derrubarmos todos os muros
a
certa altura eu disse à Maria: tenho tanto sentimento
que
não me arrisco a senti-lo completamente
apesar
de às vezes sentir até mais que isso
e
ela me disse: tenho as chaves que abrem todas as portas
mas
não derrubam muros
pois
juntemos nossos medos num mesmo espaço, Maria
para
ficarem densos como coragem
e
agora só nos restam dezessete muretas
pam!
dezesseis!
e
ela dá sua risada.
Ricos
Os
ricos pagam seus pedágios
não suficientemente seus impostos
e entregam boa parte de suas vidas
como o fazem os pobres:
subordinam-se
temem suas perdas
adoecem
apodrecem
morrem
os ricos não entendem a poesia
por isso se ocupam com suas posses
poetas não entendem a propriedade
sequer possuem a si mesmos
os ricos são mais selvagens
sem muita cerimônia mostram os dentes
e querem exclusividades
mas contrabaixistas experimentam sensações mais exclusivas
os ricos não enxergam os pobres como pessoas
por isso sentem-se no direito de enfiá-los nas favelas
nos trens superlotados e nas cadeias
os ricos detêm o argumento de gerar empregos
achando muito importante fazer dos outros seus empregados
detêm o argumento de gerar riquezas
achando bonito um planeta entupido de consumidores
detêm o argumento de que alguém precisa mandar
achando natural o extermínio da subjetividade alheia
os ricos comem a comida dos pobres
roubam suas calçadas, seus hospitais, seus sistemas de esgoto
e estranhamente...
costumam ser muito religiosos.
não suficientemente seus impostos
e entregam boa parte de suas vidas
como o fazem os pobres:
subordinam-se
temem suas perdas
adoecem
apodrecem
morrem
os ricos não entendem a poesia
por isso se ocupam com suas posses
poetas não entendem a propriedade
sequer possuem a si mesmos
os ricos são mais selvagens
sem muita cerimônia mostram os dentes
e querem exclusividades
mas contrabaixistas experimentam sensações mais exclusivas
os ricos não enxergam os pobres como pessoas
por isso sentem-se no direito de enfiá-los nas favelas
nos trens superlotados e nas cadeias
os ricos detêm o argumento de gerar empregos
achando muito importante fazer dos outros seus empregados
detêm o argumento de gerar riquezas
achando bonito um planeta entupido de consumidores
detêm o argumento de que alguém precisa mandar
achando natural o extermínio da subjetividade alheia
os ricos comem a comida dos pobres
roubam suas calçadas, seus hospitais, seus sistemas de esgoto
e estranhamente...
costumam ser muito religiosos.
Filosofia
da carne
A
filosofia sempre está por trás das coisas
jamais
vem à frente
é
uma fêmea fugaz a ser conquistada
pode
ser orgulhosa
pomposa
impraticável
porém
quando se entrega
cavalga
sobre nossas cabeças
e
faz todo o cérebro tremer nas sinapses
proponho,
no entanto, uma filosofia da carne
que
faça com que tenhamos bons modos
à
mesa dos famintos
que
nos afugente olhos e ouvidos de música e literatura baratas
que
tal, Maria Carolina,
uma
filosofia que se sinta
e
mate a baranguice,
com
um refrigerante de complexidade?
que
tal, meu amor,
uma
filosofia que nos livre de nós mesmos
mas
que mantenha o perfume e o beijo?
que
tal, João Edgar,
uma
filosofia cremosa e hidratante
absorvida
pela pele
embora
deixe cicatrizes?
Faço
poemas
Agora
faço poemas
daqui
a pouco faço qualquer outra coisa
por
exemplo: lavo a roupa
ligo
a TV num seriado
e
volto a fazer poemas
mijo,
cago
e
não demora faço poemas
brigo
com a atendente da empresa telefônica
sinto
dor no joelho
e
já escrevo novos versos
arroto
e faço poemas
minto
e faço poemas
gozo
e faço
pago
a conta de luz
penso
nas inovações do futuro próximo
falo
idiotices à minha namorada
e
em minutos, singelamente, misturo palavras
agora
faço poemas
meia
hora atrás acordei com bafo de onça
olho
no espelho e vejo que estou mais velho
e
faço poemas
que
estranha ficção é a vida!
Felicidade
A felicidade
é uma utopia barata
feita de parâmetros
e propaganda
a felicidade
é corrupta
(sei lá
exatamente por que o digo
apenas me vem
à cabeça
embora eu
concorde com a ideia)
e também é
tirana
isso bem sei
por que digo
quando foi
inventada?
não encontrei
no google
quinze
séculos antes de Cristo, porém, já se sabia o que era
hoje, é
claro, não se sabe mais
é muito tempo
para a duração de um conceito
e por que
escapa?
porque pula de
gente em gente
uma vez que
não há felicidade para todos
só é feliz
quem cuida
muitas vezes
eu também cuido
mas não quer
dizer que acredite nessa coisa.
?
O
que fazer?
para
onde olhar?
será
isso?
posso
escapar?
quem
sou?
quem
somos?
nada
mais saberei?
restam
apenas perguntas?
o
que soubemos que já não sabemos?
esquecemos?
desinventamos?
haverá
amor sem paciência?
haverá
suficiente atenção para a entrega?
o
quanto estou possuído por sistemas binários e propagandas?
sou
o que não desconfio ser?
um
ponto de exclamação!
Como
criar vida a partir dos números primos
Sujeito
desde a primeira hora
movimento
perpétuo
inimigo
intrínseco...
a
sombra na parede
a
fumaça num canto da sala
a
materialidade das cores
mundo
de arbítrios
e
a gente, inevitavelmente,
caindo.
-
Como criar vida a partir dos números primos? - perguntou-se Robert Daniel
enquanto
caía
levar
tudo da vida
foi
nosso pacto
primeiro
e último
depois
restaram símbolos
que
já não fazem sentido ou sobre eles nada mais precisamos dizer
No
dia em que se pregou a décima primeira tábua
na
porta que dava acesso à rua de baixo
propagou-se
a idéia de um mundo sem deus
elemento
tardio
preso
aos próprios calcanhares
e
já aqui
voando
sem asas
não
inventei o bem
mas
alguém inventou
alguém
de quem não gosto
como
não gosto de quem inventou qualquer abstração
fatos
gerais para dias normais
e
a sombra na parede agora é a de um cachorro
a
tarde tingiu o ambiente de sépia
em
algum lugar o som dos arbustos
tudo
muito bem guardado
para
quando o infinito couber num depósito de fogos de artifício.
Memórias
de pano
Na
minha colcha de retalhos tem uma fotografia de Garcia-Lorca declamando o último
poema antes de ser fuzilado
há
cinco sorrisos para cada lágrima em minha colcha de retalhos
uma
canção em mi maior, para que haja ternura, pero sin perder el endurecimiento
o
fantasma de um velho barbudo de quem arranquei os fios da barba para fazer um
tapete voador
e
tem um sentimento de abandono, além do abandono mesmo, das coisas inúteis, na
minha colcha de retalhos
nas
extremidades, os perigos indispensáveis para uma boa morte
ao
centro, um recorte de prazer pleno e furioso nesse manto de também gotejantes
agonias
um
leque de todas as vaidades, à direita
e
à esquerda, a vã esperança de que um ser humano venha a ser no máximo quatro
vezes menos elegante que outro
tem
ainda um sonho em que flutuo na horizontal a um metro do chão, nesse mosaico de
tudo dentro de mim e à minha volta
duas
torres implodidas, não tenho dúvida
um
violão de dezoito cordas
uma
livraria de livros escritos em meu corpo
e
um pé de jabuticaba com espaço para ficar sentado em cima
há
também uma fantasia de violência nesse pano colorido
há
o que não sou, mas tento ser (ou apenas parecer)
tem
até mecânica quântica, ataque de ciúme e dança da chuva nessa colcha quase
infinita
família,
amigos e amores
lembranças
inventadas
paisagens
inesquecíveis
a
vontade de seguir em frente
e
essas noites frias
em
que durmo coberto por tudo isso.
Poesia
de calçada
Toda
a poesia desfila diante de alguém sentado à mesa de um café na calçada
é
a vida que passa
a
senhora gorda, o velho corcunda, a garota ruiva e a criança intrigada com o
futuro
em
algum momento, distraidamente, relembram seus planos
para
tornar a esquecê-los ao se sentirem observados
mais
que as mãos dadas do casal de meninas
os
polegares cúmplices apertando-se ao cruzarem o homem carrancudo
ele,
que nem as repara, afundado em suas memórias de laranjas mofadas
elas,
que vão sentindo ínfimas palpitações de um primeiro dia de romance, com breves
sorrisos no final da arcada dentária
a
recém solteira mulher de trinta corre os olhos pela vitrine da loja para bebês
o
cachorro acompanha os vãos por entre os passos bípedes
o
guarda de trânsito olha para o relógio de punho, num mero instante fotografado
sem
jamais imaginar que seu retrato foi parar numa galeria de arte
a
câmera, agora aponta para o sinal vermelho
aquele
sentado à mesa volta-se mais uma vez para o papel encontrado à ponta da caneta
que desenha símbolos
expressões
para fabricar sentimentos
conspirações
de pessoas e ferramentas
oximoros
descontínuos
enfim,
tudo reinventado
o
poeta se levanta e parte
deixando
para trás suas últimas angústias
mas
a poesia continua.
Mundo
plano
Universo
colado numa lateral do mundo
gravidade
sobre ombros curvados
olhares
íngremes
enquanto
a vida segue
caminhando-se
em direção às muralhas do horizonte chapado
movendo-se
por uma dor insuficiente para se escrever poemas
numa
conquista de esquinas
Alguém
se deita para ver mais longe
e
velhas cortinas fecham-se para sempre
pois
muita calma diante de enigmas
que
nada será explicado
quando
ruir a última resposta
do
caleidoscópio de verdades
todas
e nenhuma.
Enfim,
as raízes despregam-se do barro que carrega tudo para baixo
instabilidades
planas recobrem pirâmides
a
lua inaugura novas estações
não
obstante o impacto
tudo
melhor que nada
e
agora nenhuma certeza
a
não ser a do escalpo finalmente apontado para o céu.
Não
ao pó (cenas de um infarto)
Dezesseis
minutos:
a
auto-imagem na colher de sopa
viver
faz sentido no aroma de aspargos
e
no cuidado dispensado aos temperos
quinze
minutos:
desejos
radiais
partículas
chocando-se contra o diminuto núcleo
mas
restam a ousadia dos elétrons
e
a melodia oculta em Stravinsky
dez
minutos:
lembranças
de um dia quente no inverno
calor
e frio na multiplicidade
mudança
de país para se fugir do grande amor
ou
terá sido um convite da inquietude, já não importa
oito
minutos:
o
afeto reside em um novelo de lã
trabalhadores
braçais, ao longe, brincam de pequenas violências físicas
cinco
minutos:
de
nada se desconfia
a
não ser de se ter deixado destrancada a porta da sala
e
de como são feitos os embutidos
três
minutos e um sorriso franco diante do seriado na tv
quem
dera o mundo fosse realmente plano
para
que não se voltassem os bumerangues
não
que seja por isso
um
minuto:
a
morte mais real que a vida
o
oxigênio como última verdade
uma
luz se apaga
mundo
sem lastro
três,
dois, um
o
coração pára
agora
tudo é mentira
seria
não
fosse o pronto socorro improvisado
e
ainda haverá mais trinta e cinco anos de vida
além
de toda poesia.
Sobre
as coisas que são para sempre
Viajava
pelo mundo da beleza pura e simples
quando
me deparei com uma beleza rasgada
eu
era muito jovem
e
de repente, ali, fiquei mais velho, de uma velhice mágica
foi
como ter descoberto a pólvora
que
me explodiria para o universo das belezas tristes
e
das belezas maculadas
ali
também fiquei um pouco mais mudo
enquanto
Apolo escorria vermelho para fora de meus ouvidos
e
Dioniso acenava-me de longe, gritando algaravias (apenas porque eu ainda não as
entendia)
quando
o primeiro espinho me cortou a carne
vi
um mundo retorcido
e
achei graça
estava
inaugurada em mim a angústia
de
querer tocar o dedo de deus
a
cada dia
e
claro que era sem volta
aquela
beleza me tornou mais vivo.
O
fim da estrada
Caminho
pela trilha de uma paisagem imensa
a
cada centímetro rasgo com minha pele a pele invisível do espaço
meu
corpo se funde ao horizonte
nesse
mundo que só existe agora
em
todos os ângulos possíveis
eu
estava tão distraído
que
senti o tamanho do universo
ao
tentar agarrá-lo retornei à estrada
agora
à minha volta nenhum movimento
só
este zumbido nos ouvidos
o
canto esquecido de um pássaro
um
céu abstrato
e
as coisas que não existem
mas
que vibram
não
quero chegar.
Um
quadro
Corre
o pincel
a
tela recebe seu primeiro azul
invisíveis
círculos projetam-se aflitos
mas
não serão recolhidos
somente
os mais cúmplices e resilientes
porque
ainda haverá outros laços
e
esses entre outros amarrados e soltos.
o
rosto enigmático assiste a tudo
desvelando-se
em gotas, formas expansivas
para
quais não se olha, atira-se
adentro
desse mundo elástico e preciso
caleidoscópio
de sóis e luas
verdes,
azuis e amarelos girando macios
fundo
estampado de outros fundos
esquinas
convexas
bolas
de oxigênio, cíclicas
e
tudo agora está feito, impresso, contido.
até
onde se alcança com essas rodas?
como
desdobrar este mundo?
universo
feminino de inaudito sorriso
e
essas cores que não se aprendem
se
conquistam.
Lusco-fusco
de domingo
A
violência como sentido
o
último suspiro da utopia
palavras
translúcidas
e
tudo o que no fundo é nada
apague
a luz o último a sair da redoma de preceitos
nunca
houve o que houve
apenas
o agora das entrelinhas
e
o restante de adornos
contornados
mas
sempre haverá o gozo.
Namorados
Eles
e elas
todos
a
trocar beijinhos
carinhos
preguiças
pequeninas
catarses
singelas
disciplinas
elaborando
densidades tão íntimas
que
quase se constituem matérias
no
encontro dos olhares.
pessoas
lindas, as apaixonadas
a
contrariar maldades
a
esquecer-se das coisas úteis
sendo
de toda utilidade apenas a vida
essa
que se usa enquanto se namora
e
é somente o começo
de
beijos suaves colhem-se abraços e apertos
o
coração acelera
as
mãos procuram entradas
destituem-se
panos e semanas
e
o tempo agora é o da natureza
o
espaço é uma selva
nua,
a carne impensante, quase toda
não
fossem os átimos de lembranças
os
ínfimos atos falhos
e
uns pouquíssimos segredos
ainda
assim, o ímpeto de um bicho
sem
a incômoda profusão dos símbolos
e
já não se sabe onde começam e terminam as pernas
feios
e bonitos, tudo é beleza
orgia,
lascividade, despudor
indecência,
sacanagem e falta de vergonha
quando
nesse descaminhar anuncia-se o gozo
e
nessa hora não há maldade
ou
bondade
ou
conhecimento
apenas
o que é, existindo
e
só nesse instante
depois,
notar-se-á algum vazio
nota-se,
mas não se dá conta
assim,
tão paradoxo quanto é o amor
ou
o mundo
ou
como o são os amantes
e
então, vem a realidade
mas
ainda se está apaixonado.
Palavras
em câmera lenta
A
pele
grudada
na carne
a
divisão entre o não espaço
mundo
encontrado em si mesmo
desvãos
acumulados
até
a matéria
misturam-se
música, moedas e matemática
alcança-nos
o tempo descarrilado
séculos
e minutos
envergam-se
apenas
eu estou parado
nesse
retrato de todas as coisas
aqui
dentro
ficou
o seu perfume na partida
guardei-o
num frasco
que
um dia se quebrou
e
agora seu cheiro
entranhou-se
de vez pelo mundo
testemunha
em detalhes mínimos
quando
o lábio se deformou
mordendo-se
delícias
acontece
agora no coração
na
mente já é futuro e passado.
Ao
vento
As
promessas de uma vida
heranças
distribuídas aos pedaços
sementes
desterradas
projetando
novos dias
patrimônios
metafísicos, latências aladas
não
se sabe o quanto espalham-se ou se multiplicam
ou
se morrem na esquina de nenhum lastro.
o
que se deixa e a quem?
será
este o motivo: uma alma contínua sobre todas as costas
obedecendo
a um gigante faminto?
legados
não-lineares, espirais disrítmicas
estará
o mundo indo ou vindo?
o
que se constrói e se destrói a cada passo?
futuros
ancestrais
atavismos
erráticos
todo
o conjunto da obra
nos
mínimos detalhes
lançados
ao vento.
Duas
coisas antes de morrer
Uma:
saltar de pára-quedas no Grand Canyon e ao pousar cair direto no tatame de uma
dinâmica kundalini misturando-me a outros doze corpos em meditação e êxtase
rolando por cima de todos eles durante vinte minutos de sensações não
codificáveis e estranhamente desconhecidas para logo após entregar-me a um
surdossonoro mergulho nas águas límpidas de Galápagos ouvindo Kashmir na versão
original já atravessando os mares até Barcelona chegando no fim de tarde para
assistir ao pôr-do-sol do mais intenso vermelho que já se derreteu no horizonte.
Depois um banho demorado, lagosta na manteiga, dançar num pequeno bar até o dia
nascer e de modo algum perder o café da manhã em Agadir pois ainda será preciso
alguma energia para largar-me nas areias mornas de Lopes Mendes e sorver pela
última vez A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock sentindo a brisa arrepiar a
pele e o corpo tocar o chão macio por onde eu poderia escoar sem o mínimo temor
do desaparecimento derradeiro.
E
a outra: te pegar de jeito.
Mundo
abstrato
Um
sonho
sonhado
ao meio-dia
um
cochilo pesado
de
quem acaba de comer um rato
e
eis que se compreende
que
um rato é o mesmo rato
do
outro dia
embora
outro
agora
todos os ratos são rato
todos
os rios são rio
e
o sol
é
o sol de todos os dias
é
o sol
é
o rio
é
o rato
no
mundo abstrato
e
ele já não é ele
saiu
de si
desejando
ser outros
(embora
já fosse)
o
raciocínio está fora do mundo
e
ele agora está sozinho
pensando.
Não
não
é de História que aqui se fala
mas
de poesia
a
poesia do mundo dos homens
do
pensamento
das
ferramentas
e
das palavras
da
ínfima caminhada cósmica
com
pegadas de cinco dedos
e
rodas
e
asas
do
mundo mediado
simbolizado
por
abstrações faladas, cantadas, pintadas, dedilhadas, dançadas e escritas
pois
é esta a grande poesia humana
em
que X compreende Y
nas
miragens da caverna
mundo
impresso nas sombras
a
procura da luz encerrada na escuridão
que
também somos nós
um
breve olhar para o céu
e
lá estávamos
gigantescos
deificados
imagem
e semelhança desde quando não se sabe
e
a vista, ao alcançar o horizonte
imaginava
a queda que havia no fim
do
planeta quadrado
mas
antes
o
que esconderiam as altas gramíneas
que
moldaram o corpo ereto
arrancando
do chão a fuça pré-humana
oferecendo
a visão em detrimento do olfato na cadeia das importâncias
desde
a descida das árvores?
ahh...ferramenta,
ferramenta
mãos
também mediadas
corpo
sob a pele de outro corpo
pele
também mediada
visão
exaurida por outra visão
tudo
atravessado
a
religiosidade
as
pernas
o
amor
tudo
outro e outro
em
todos os tempos presentes, passados e futuros
o
tempo das borboletas e das redes
dos
velhos e das crianças
das
mulheres e dos homens
dos
funcionários públicos e dos astronautas
tempo
e espaço infinitamente múltiplos
e
a razão que não é razão
a
emoção forjada
a
grande cegueira em relação a todas as coisas menos uma:
a
lógica
o
mundo inaugurado nos sonhos
e
sonhado
pois
sempre houve a fantasia
e
a vontade
o
delírio
o
medo
e
a beleza
neste
multiverso de afetos e traumas
de
orgasmos atingidos na sinapse
na
poesia que também sempre houve
na
qual se forjou a cultura dos povos
da
cultura, a matemática
da
matemática, o lucro
antes
até dos números
só
não antes da poesia
que
não é mal ou bem
apenas
a primeira resposta à dor do raciocínio
a
palavra...a palavra...
o
som, no entanto, precede a palavra
o
ritmo precede a palavra
que
se veja um bebê e suas algaravias
que
se pense em nossos ancestrais rosnando fonemas
ritmo
e sonoridade
mas
a poesia precede a tudo
e
embora seja um exemplo tardio, nunca existiu uma cidade sem versos
Que
não houvesse arte nos primeiros desenhos rupestres
ou
nos primeiros rufos de tambores
mas
um poema já habitava o planeta
na
estética da sobrevivência
pois
é este o mundo dos homens
mundo
dentro de outros mundos
quando
da guerra se fez o esporte
da
comunicação, a música
e
de raios e trovões fizeram-se as divindades
não
somos o que somos
apenas
o que acreditamos
todas
as ciências
a
arte
os
animais domesticados
nossas
incontáveis relações com coisas vivas e mortas
a
agricultura e as máquinas
o
vício da ordem
e
os demais vícios
(o
poder, não,
que
esse é do bicho)
a
roupa
o
dinheiro
a
culinária
mundo
real inventado
assim
como, um dia, inventaremos a vida após a morte
um
novo universo antes do bigbang
e
o sexo híbrido
eis
o mundo dos homens
não
sua História
mas
sua poesia
a
única realidade possível.
Sertão
semântico
1
Um
leito de rio seco
pronto para receber as águas da nova estação
olhando o longo corredor de barro espesso
quem sequer suspeita de sua tormenta?
árido caldeirão de vento
que logo abrigará mil formas explodidas
rico manancial de silêncio
o leito paciente fixado no tempo
enquanto tudo corre para ele
e dele irradiará para tudo
indômito vulcão
o rio seco
conhece o vazio ardente
intui seu renascimento.
2
Cai
a primeira chuva
e das águas turvas surgem poemas
escritos com lama revolta e galhos secos
impressos em si mesmos
à margem e acima das superfícies
inaugurando correntezas também adentro
alimentando novos poderes da existência
semeados à força do estio
não sou eu
é ele
o rio
e antes do rio
seu leito.
3
Temporada
das águas
emoções líquidas ocupam a metade mais rasa do
planeta
na outra metade duras montanhas barram as
embarcações esquivas
e já não existe o leito
mas caminhos erodidos
abalos sísmicos de gotas chocando-se contra o
vento
enxurradas até que desertos derretam
e fantasmas supliquem por suas correntes
vai-se o mundo em chamas avessas
e o rio com sua cauda a transbordar nos
horizontes
inundando sonhos de deuses translúcidos
esperanças submersas
tudo flutua
no afogamento.
4
Derramam-se
as luas cheias
escorrem pelos povoados e prados a seiva
a última chuva dedica-se a um hectare
em volta já se vêem os veios indolentes
miragens verdes
e o rio desnudando-se em sangue negro
a lama, o úmido desterro
o céu aceso
infinito mergulhado ao centro
a obra inscrita num juazeiro
e ali
o leito
novamente seco
espreita.
Desaparecer
1
Definitivamente
não
há silêncio
e
tudo extrapola para além de meu corpo
idéias
impregnadas de poesia
é
o que ofereço:
um
infinito de carbono
nesse
canto
que
me mata de vida
enquanto
átomos explodem do peito
coincididos,
mutilações
construtivas
diante
da densidade única de um momento
configurações
terciárias
no
poderoso instante criativo
alma
diluída
sapiência
de estrelas
visão
até às costas
hipertexto
de mundos
e
eis que estou aqui de novo
2
Aqui
novamente
e
já vou indo
na
onda que volta
sempre
outra
todas
as formas pulsando de minha veia
o
necessário
políticas
do sentimento
deseducação
atávica
lançando
mil destroços
até
mediar-me
sem
verdades
que
se danem órbitas e raciocínios
para
além das estrelas não há segredos
apenas
ignorâncias em si mesmas
imponentes
ciências, portanto, nada importam
importa
o beijo.
3
Fui
e voltei de tantas expectativas
enquanto
perdi cada segundo dos balanços balançados
nada
é mais importante que a ameba
dividindo-se
conhecemos
os fatos?
bichos
de hesitante presença
calculistas
afetivos
tudo
isso
sei
de uma coisa que ninguém sabe:
sei
aqui dentro
ainda
que tão pouco.
4
E
novamente me vejo
enquanto
recolho alguns trocados.
Viagem
ao mundo dos nomes
Toda
palavra tem uma origem
um
dia em que se tornou aquele nome
eu
estive em cada um daqueles momentos
foi
de repente
num
devaneio
respirei
trinta e duas vezes
deixei-me
levar
e
lá cheguei
atravessando
todos os tempos da linguagem falada
novas
sinapses para novas articulações
até
à abstração
e
da abstração...
a
primeira palavra
as
palavras nasciam das varas de condão dos dedos
apontava-se
e se nomeava:
uru
uru, queria dizer pedra
akar,
era árvore
muitas
vezes, porém, akar ainda podia significar pedra
e
uru uru, árvore
aquela
ou
todas
mas
surge o segundo movimento da lógica:
a
sentença
a
conversa entre substantivos, adjetivos e verbos
nomes
servindo a outros nomes
e
antes que se percebesse
estava-se
preso pelo que saía de todas as bocas
na
velocidade dos relatos vi deuses ganhando contornos de braços e pernas, olhos e
narizes
homens
cercando um pedaço de terra em nome de terríveis mistérios
histórias
e notícias voando de uma cabeça a outra
de
coração em coração
e
o mundo agora plasmava-se a partir dessas aereabilidades
com
peso de pedra
madeira
e
ferro
um
dia, as palavras aterrissaram
e
conquistaram superfícies
oficializando
leis e contratos
matemáticas
e estados
globalizando
as mentalidades
novas
armas para novas guerras
vi
o mundo sair da idade das trevas e iluminar-se pelo calor do discurso
Céu
e Terra separarem-se a partir de espadas retóricas
que
poderiam ser outras
caso
houvesse um buraco pelo caminho
ou
a nuvem estivesse ao meio-dia em formato de leão
mas
não havia
mas
não estava
religiões
se reformam
conhecimentos
se multiplicam
ciências
consolidam-se
sempre
as palavras
roçando
em outras palavras
entrelaçando-se
vertiginosamente
sobrepujando
mesmo as evidências
minha
nave agora viaja na velocidade da razão
mãos
nervosas conduzem máquinas que moldam cinco mil novas verdades
inauguram-se
dez mil novos dilemas
nessa
revolução teiática de ideias colididas
e
comunicadas
tornando
as palavras metametáforas
num
mundo de microtécnicas
linguagens
suprasimbólicas
e
os impactantes componentes elétricos
novas
palavras
faladas
escritas
embutidas
o
advento do slogan
e
já não se caminha
flutua-se
velocidade
final
rompidas
as barreiras do tempo e do espaço
declarado
o fim da história
a
propaganda supera a moral
as
palavras perdem o peso das coisas tangíveis
e
já não relatam acontecimentos
mas
sonoridades e cores
fixa-se
novamente a imagem
agora
não mais como espelho da natureza
mas
imagens-ficções
potencializadas
tecnologicamente
divulgando
todos os mundos possíveis
legislações
implícitas
ordenamentos
invisíveis
o
que virá?
de
onde virá?
a
que tempo?
finalmente
estou de volta ao quarto
desperto
de um sonho estranho
e
nada mais posso dizer.
A outra metade do mundo
Tanto tempo sentado diante dessa tela
que finge estar viva
mas não cheira
não toca
não sente.
eu sinto
(embora menos que antes)
então me levanto e caminho
para, primeiramente, irrigar os vasos sanguíneos
e sentir o pulso
enquanto atravesso a porta
já descendo as escadas de dois em dois lances.
Ao chegar à portaria surpreendo o porteiro dormindo
acordo-o, convido-o
que tal nenhuma pergunta e seguirmos?
e seguimos
agora também acompanhados pela modelo e pelo advogado de causas
trabalhistas
vamos a passos largos
e já somos quatro
cinco
dezesseis
somos setenta e oito
e sabemos aonde vamos
somos quinhentos e vinte
desdobrando esquinas
caminhantes irredutíveis
três mil, trezentos e trinta
batendo à porta dos adormecidos
seduzindo transeuntes
pelo poder do ritmo
vinte mil pares de pernas
e não pode mais haver silêncio nisso
meio milhão já se contam do alto
atravessando a cidade e de lá saindo
rumo a outra cidade e outra
e já somos quinze milhões
rompendo terras e rios e tão rápido multiplicados
ultrapassando fronteiras
até depararmo-nos com novas turbas de seculares peregrinos
contando-se agora um bilhão e meio de cruzados
já se avistando até maior soma do outro lado
marcha obstinadamente vencida mar acima
na onda que prossegue inabalável
rumo onde encontra-se a convenção dos sessenta e dois mais ávidos
detentores da mesma soma que cabe a três bilhões e quinhentos
milhões de recém despertos
eles, os sessenta e dois, frente a frente com nosso exército de
possuídos
tentando explicar com que direito detêm a mesma riqueza da metade
mais pobre do mundo
os sessenta e dois homenzinhos
que pensam, que sonham, que gozam, que defecam
bradando suas verdades de quatorze horas de trabalho
da premiação também pelo risco
do mérito que deve ser assim calculado
pelo divino direito de lucro e acúmulo
das regras do jogo que todos sabem
das leis que...
mas nossa multidão de metade do mundo lentamente avança
e as palavras dos sessenta e dois homenzinhos já não fazem
sentido.